Capítulo II

Doces ou travessuras? … Professora Medeiros


Na sexta série por um milagre o qual nunca descobrimos a fonte, conseguimos ficar na mesma sala, foi também naquele ano que conhecemos a Professora Medeiros.

Ela não era nenhuma senhora de mil anos, ela era bem jovem na verdade e muito bonita também.

O problema na realidade era outro, e incomodava os alunos de todas as séries.

Ela falava muito rápido.

Segundo o que ficamos sabendo sobre a nossa professora, ela era de uma cidade muito pequena, uma tal de Sorocaba, onde todos os Sorocabanos (sim, Sorocabanos mesmo, imagina as pessoas dessa cidade né!) falam bem rápido (sempre quis acompanhar uma conversa deles para ser sincera, deve ser hilário!).


Ela nunca gostava de escrever na lousa, ditava todos os textos necessários (e eram grandes), era quase impossível acompanhar o ritmo daquela mulher, pelo amor, ela falava muito rápido mesmo!

Perto do dia das bruxas, descobrimos o local exato onde a nossa professora morava, e decidimos fazer uma brincadeira bem saudável perto da casa dela.

Nas semanas próximas ao grande dia, nos nós reuniamos na casa de Megan para escolher as fantasias, decidir os pontos de recolhimento de doces e o que fariamos na casa da professora Medeiros, é claro.

Cada dia que passava, ficávamos mais e mais animadas, nossos planos era perfeitos e ninguém nunca nos pegaria no flagra, tinhámos tudo sobre controle.

Bom, nós pensávamos que tinhámos tudo sobre perfeito controle.


O que nós nunca poderiamos imaginar é que a nossa professora também tinha planos para o grande dia:

- Entalunos, esperquevoêsdeemumpassadanaminhacasamanhã, estoureservadoalgomuitoespecialparavocês!

Na realidade ela disse isso:

- Então alunos, espero que vocês deem uma passada na minha casa amanhã, estou reservando algo muito especial para vocês!

Mas nós entendemos aquilo.

Naquele momento, algo subiu pela coluna de todas nós, era o sinal de algo ruim, que não seria bom levar a nossa brincadeira saudável a diante:

- Meninas, não acho que seja uma boa ideia continuar com o plano. – Vivian parecia preocupada demais com o que poderia acontecer, preocupada demais.

- Não acho que a professora vá aprontar alguma coisa tão grave assim Vi!

- Ai Alice, acredito que ela irá pregar uma peça, mas o ruim é não saber a gravidade dela. – Era a vez de Serena mostrar preocupação.

- Meninas! Vamos fazer o seguinte… continuamos com o nosso plano original, se o que a professora pretende for pior, cancelamos o nosso na mesma hora, todas de acordo?

Samantha havia encontrado a saída perfeita.

No dia das bruxas tudo ocorreu normalmente, as aulas foram normais, o colégio enfeitou todas as salar com imagens de bruxas, gatos pretos, e etc.

Depois das aulas super normais, todas fomos para as nossas próprias casas para iniciarmos os preparativos e lógico, ficar lindas para sair de noite.

Nos encontramos na frente da casa de Serena, dali nós já tinhamos um caminho montado para pegarmos muitos doces antes de colocar o nosso super plano em ação.

Depois de uma hora, já tinhamos bastante doces, o suficiente para uma semana inteira (a nossa vizinhança era composta por pessoas idiosas, que eram bastante gentis) até que um grupo de garotos do 2º ano, bastante estranhos na verdade, resolveu implicar conosco:

- Meninas, meninas do meu coração, fico muito feliz que vocês tenham tido todos esse trabalho de recolher tantos doces assim para mim! – disse um rapaz com um cabelo estranho, que parecia ser o líder dos outros.

Olhamos todas umas para as outras, algumas com o olhar demonstrando pânico:

- Desculpa rapazes, mas nós não vamos entregar os nossos doces para vocês! – Pela primeira vez Serena tinha se rebelado, uma das coisas que ela não suportava era injustiça.

- Ah, vocês vão sim, afinal….

- Não existe afinal para você Rodolfo!

Todas reconhemos a voz, um rubor muito forte dominou por completo o rosto de Serena, por um momento todas pensamos que ela iria ter um ataque ali mesmo:

­- André, um conselho, NÃO SE META!

- Rodolfo, você acredita mesmo que eu vou deixar você atormentar essas garotas inocentes?

Sim, muito inocentes!

Em menos de um segundo, eles avançaram um para os outros como se fosse o início de uma guerra, mas pararam:

-Não vou brigar com você, não hoje!

O olhar dele demonstrava tanta raiva, que todas ficamos com medo, o tal de Rodolfo junto com os outros praticamente correram, é óbvio que fizeram muitas ameaças e etc. E essas não demonstraram efeito em André:

- Serena, fico muito feliz em te reencontrar, vejo que é uma menina com muita coragem!

- É….que……

Ela não conseguia falar, de novo!

- Se vocês quiserem, nós podemos acompanhá-las em seu trajeto, eu ficaria muito feliz.

- Ai, muito obrigada, mas nós preferimos ir sozinhas, só temos mais algumas casas para visitar, logo voltamos para casa.

- Ah, que pena! Qualquer coisa é só gritar! Combinado?

- Claro!

Assim nos despedimos do pretendente de Serena, ela aparentava um raio de sol pelo resto da noite, e claro, não perdemos a oportunidade de comentar sobre o quanto ele gostava dela.

Era puro amor.

Algumas quadras depois, estávamos bem perto da casa da professora Medeiros, encontramos alguns dos nossos colegas de classe, conversamos um pouco e percebemos que todos tiveram a mesma ideia de aprontar na casa da professora, se tivessemos juntado a classe inteira, seria perfeito.

Andamos um pouco mais, conversamos, rimos até chegar na casa.

Era uma casa muito bonita, simples em tudo, talvez por isso fosse tão perfeita, e naquela noite fria parecia ser o pior dos nossos pesadelos.

Muitas abóboras com rostos variados (um mais malvado que o outro), alguns gatos pretos muito bonitos e a escultura de uma bruxa muito feia, com uma feição muito real.

Até aquele momento, alguns dos nossos colegas já haviam saido correndo (olhar para aquele jardim realmente deixava qualquer um morrendo de medo), outros estavam tremendo, mas a curiosidade por o que havia dentro daquela casa foi mais forte em todos, sendo o único motivo que nos levou a entrar.

Então, começou a chover!

Não tinhamos mais saída, a casa mais próxima (a de Vivian) ficava muito longe, só tinhamos duas escolhas: a primeira era entrar na casa da Professora e enfrentar o que tivesse lá e a outra era pegar um resfriado (a chuva estava muito forte) e ouvir nossas mães reclamando de ter que cuidar de crianças doentes.

Escolhemos a primeira.

Entramos, aparentemente não havia nada assustador lá dentro, até que do nada apareceu uma senhora, vestida como uma cigana e muito irritada:


­- Crianças na minha casa! Odeio crianças! Pelo que sei, vocês todos são crianças mal-comportadas. Bom, a situação é mais que perfeita! Vocês só poderão sair desta casa, se conseguirem sobreviver a ela… passem por aquela porta… e acreditem, esta casa é ENORME!

Alguns tremiam de medo, a voz dela era áspera, e quando ela se aproximou, notamos muitas cicatrizes com diversos formatos em seu rosto, além do seu hálito ser horrível.

Seguimos, na primeira sala encontramos três vampiros, o ambiente era perfeito, havia algumas velas colocadas em cálices dourados, os caixões tinham alguns desenhos talhados (muito bem feitos na verdade) como se contassem uma história, um dos nossos colegas chegou mais perto (uma grande burrice, claro que na minha opinião).

Os três vampiros levantaram dos caixões, todos eram muito brancos, um homem e duas mulheres.


Nosso amigo correu para se esconder atrás de nós (depois nós mulheres que somos medrosas), todos os outros meninos tiveram a mesma ideia, em menos de trinta segundos, estávamos todas nós protegendo os rapazes, o mesmo pensamento dominava a nossa mente: “Deviamos ter trazido o André junto!“

O vampiro deu alguns passos para a frente, nós alguns para trás, ele deu sinais que iria falar, nós de que iamos gritar:

­- Boa dia pessoas de outro planeta!

Nosso pensamento: ah?

- Desculpe senhor, mas já é noite!

Alice sempre teve um parafuso a menos, era nessas horas que notávamos isso.

- A senhorita pode até ter razão, no seu mundo já é noite, mas já que eu sou um vampiro muito charmoso e sexy …


Quando ele disse charmoso e sexy, as duas vampiras reviraram os olhos, se vampiro ele era assim, imagine um sendo um ser humando normal?

- … lhe informo que é dia no meu mundo… sempre é dia quando saímos para caçar!

- Pode parar!

Uma moça, até que bem bonita, apareceu do nada (sério, o meu medo era tanto que nem percebi o local por onde ela entrou).

- OH MEU DEUS! É A BUFFY!

Era um dos meninos da turma, seus olhos brulhavam enquanto ele olhava para a moça, essa por vez perdeu totalmente a linha de raciocínio, concerteza ela não esperava por essa comparação.

- Olha… eu não sou a Buffy!


Devia ser pecado tirar o brilho dos olhos de uma criança da maneira que ela tirou, mas tudo bem, ele sobreviveu a isso, eu acho.

Depois de uma rápida troca de olhares, eles começaram a lutar, conseguimos acompanhar a luta por aproximadamente três minutos, até que algo por baixo de nós se abriu e caímos.

Caímos em um local pequeno e sem iluminação nenhuma.

Notamos que havia algo grudento no chão, nos mexer era realmente difícil, acredito que no total perdemos mais ou menos meia hora para encontrarmos uma escada e sairmos finalmente daquele lugar nojento.

Só que a sala seguinte era bem pior, pois várias múmias nos encaravam.

Não, para a nossa felicidade elas não se moviam, mas as faces eram terríveis, era impossível olhar fixamente para elas por mais de dez segundos, o local era úmido e havia algo grudento no chão (não era como no porão, conseguiamos andar nessa sala).

Atravessamos aquele local de mãos dadas, quando faltava menos de um metro para a saída, as múmias acordaram ( sim, até aquele momento todos pensávamos que elas não iriam se mexer, mas lógico que estávamos todos enganados), todos saímos correndo, mas infelizmente um dos nossos colegas não conseguiu sair.

A porta pela qual passamos se fechou tão rápido que só ouvimos os gritos do nosso colega.

Até que o silêncio reinou.

Todos estávamos em estado de choque, até que notamos que estávamos em um corredor enorme, com várias portas, uma voz conhecida recitou como uma poesia as seguintes palavras:

- Meus caros amigos, vocês são muito corajosos para terem chegado até aqui, tenho boas notícias, caso vocês escolham a porta certa, só terão mais algumas salas até sairem daqui, mas caso escolham a porta errada, ficarão perdidos aqui para sempre!

Olhei para o rosto de cada uma de minhas amigas, todas pensávamos o mesmo : “Sempre seguir em frente“, mas os nossos colegas não pensavam o mesmo.

Ficamos ali por alguns minutos, nós estávamos decididas a entrar na última porta, já os meninos iriam cada um para uma porta (homens são teimosos desde sempre!) e assim nos separamos.

Na sala que entramos havia somente uma piscina e muitas velas.

Chegamos mais perto, sempre de mãos dadas, e vimos algo no fundo da piscina.

Parecia uma sereia.

As mãos das meninas suavam de medo, mas mesmo assim não largamos uma da outra, continuamos firmes e começamos a andar devagarinho ao redor da piscina para sairmos dali sem despertar a ira do ser ninguém.

Mas como podem observar, tudo que desejamos acontece exatamente ao contrário, e aquele ser de outro mundo começou a subir muito rápido.

Então gritamos e corremos, aquele ser era uma mistura entre uma sereia e uma harpia, nós pobre meninas mortais nunca imaginamos ver algo assim nas nossas vidas, na realidade até hoje nunca vi nada parecido com aquilo.

O grito da harpia era horrível, por pouco não saímos de lá surdas.

Até aquele momento, todas nós estávamos cobertas de suor, aquela casa era o nosso pior pesadelo.

Passamos por um corredor pequeno, com dois quadros que nos seguiam com os olhos e davam risadas malignas.

Naquela sala (que esperavámos ser a última) havia muitos túmulos.

Sim, túmulos.

No fundo da sala, havia uma senhora vestida de negro chorando na lápide de alguém, também podiamos ouvir várias pessoas chorando e pedindo socorro, mas só eram sussuros, pois não havia mais ninguém ali (tomara!).

Quando íamos ajudá-la, Sopheaa se apressou a sussurar:

- Não! Eu sei da onde eles tiraram a inspiração para este ambiente, devemos ficar longe dela, não temos nada para dar a ela! Venham vamos sair daqui logo!

Ela tinha razão, saímos dali e a senhora aparentemente não notou a nossa presença:

- Como sabia Sopheaa? – Megan fez a pergunta que estava na mente de todas.

- Sou viciada em King’s Quest! Vamos, acho que é a última sala!

Nenhuma conseguiu entender, só mais tarde descobrimos que King’s Quest era um jogo antigo e muito bom da Sierra, acabou que todas ficamos viciadas nele.

Na última sala, o ambiente era todo verde, havia muita fumaça, o cheiro de amônia estava em toda a parte (será que estavam fazendo sangue do diabo?)

No meio de tanta fumaça, conseguimos ver três bruxas jogando vários ingredientes suspeitos em um caldeirão enorme, que borbulhava e emitia sons estranhos cada vez que era adicionado algo.

Depois de alguns minutos, reconhecemos uma das bruxas, era ninguém menos que a nossa querida professora Medeiros:

- Parem! Aquelas meninas que se dizem corajosas, conseguiram invadir o nosso local sagrado, elas estão aqui, procurem elas suas bruxas! PROCUREM ELAS!

A voz era muito grossa, com uma pitada de sedução, nós curiosas como sempre vimos, com muita dificuldade, que a voz vinha de um rapaz que estava preso no espelho.

E esse foi o nosso fim, para olhar o rapaz nos descuidamos e as bruxas nos viram, entre risadas e gargalhadas elas vieram na nossa direção, quem sabe seríamos o próximo ensopado?

Quando demos por nós, estavámos em um canto da sala, presas por uma gosma verde (depois dessa aventura na casa da professora, todas nós ficamos traumatizadas com gosmas verdes, era realmente muito nojento), mas antes que as bruxas conseguissem fazer de nós o prato principal uma nova armadilha se abriu em baixo de nós.

Caímos novamente, a última coisa que lembro era da risada delas se perdendo no eco, pois não acordamos em outra sala, mas sim no jardim da casa, onde havia muitos restos mortais de pessoas, como cabeças, mãos e pés desmembrados.

É claro que saímos correndo dali, por sorte (ou não) estávamos vivas.

Como era o nosso combinado, passamos o resto da noite na casa de Samantha, preciso dizer que nenhuma de nós conseguiu dormir naquela noite?

O pavor ainda reinava no fundo dos nossos olhos.

Na segunda-feira, já estávamos perto do nosso estado normal, encontramos com os nossos colegas (aqueles que estavam na casa) e eles nos contaram que ficaram perdidos por horas dentro da casa, mas alguém acabou ficando com pena deles e os tiraram de lá.

Segunda era dia em que tinhamos duas aulas com a professora Medeiros:

- Então crianças, como foi o dia das bruxas de vocês? Se assustaram muito?

Ela olhou por toda a sala, até que parou o olhar em nós, havia algo diferente naquele olhar, mas era impossível descrever o que ele queria transmitir, mas acredito que era respeito.

Sim, respeito pela nossa amizade e pela a nossa coragem.

Você me pergunta sobre o plano da irmandade?

Bom, o nosso medo era tanto que acabamos esquecendo dele, e depois daquela noite nunca mais planejamos nada para o dia das bruxas, a não ser claro pegar doces.

E no ano seguinte, descobrimos que toda aquela casa era uma peça muito bem feita da professora (apesar que tudo ali parecia ser muito real), alguns dos ‘mosntros’ eram nada menos que alunos ou familiares da professora, pelo que ficamos sabendo a família dela adorava dia das bruxas e como a professora tinha muitos alunos metidos a corajosos, ela sempre pregava essa peça da casa do pesadelo.

Sim, no ano seguinte fomos chamadas para participar.

Não participamos.

O motivo? Sopheaa foi para o convento no início do ano seguinte, e não podíamos participar sem ela.

Mas isso é algo para ser contado outro dia.